“ Eduardo ligou seu toca-MP3, colocou na última faixa do CD e saiu, não iria ver a sua menininha encenar mais um ato na sua frente. “Já chega de teatro”, pensou. Chega de mis-en-scène. Se a felicidade sempre ofende, a tristeza que ele carregava já estava cansando. A vida segue… Deveria ter ouvido um amigo que alertou: “Mário de Andrade escrevia que ‘nome que começa com ma tem má sina’…”
Ele já sabia que Mariana, na festa de celebração da estréia da peça, bebera um pouco demais e ficara com um de seus melhores amigos. A ironia vai nos salvar. A arte vai nos salvar — oras bolas, não é para isso que ela serve? Os amigos irão nos salvar? Amigos servem pra nos levar quando a bomba explode, não?
A leve garoa o fez acelerar o passo, chegou em casa antes do programado. A barba já estava um pouco grande e, desta vez por sua própria vontade, foi até o chuveiro, colocou um pouco de água quente numa vasilha, pôs um pouco de creme nas mãos e distribuiu na face. A navalha feita em aço retirava o excesso de pêlos e creme e deixava a pele já castigada por noites e noites de falta de sono, mais o acúmulo de trabalho, limpa feito pele de bebê.
Aumentou o volume do CD-player e apertou mais uma vez o botão que repetia a faixa. Olhando para o espelho, sem uma gota de sangue no rosto, falou para si mesmo:
— QUE SE FODAM OS OFENDIDOS! ”
O álbum do Violins foi recontado por José Franco Jr. Domingo, na MOJO.