Dave Gahan é o coração do Depeche Mode, mas nunca foi a alma. A banda é controlada com punhos de ferro por Martin L. Gore, fato que gerou a saída de Alan Wilder no início da década 00. Gahan parecia se ressentir deste controle absoluto e, em 2003, soltou Paper monsters, sua primeira incursão solo. Para garantir o êxito, se afastou bastante da sonoridade do DM, colocando muito blues e uma pegada rock no disco. Comprovado seu talento, ganhou espacinho em Playing the angel, de 2005, do Depeche Mode, onde conseguiu emplacar algumas composições.

Quatro anos atrás, Paper monsters poderia ser classificado, toscamente, de uma fuga do “casamento” com uma amante bem diferente da mulher a qual ele estava acostumado há mais de vinte anos. As variações, os riscos assumidos, mostravam um Gahan bem disposto, até mais poderoso que nos últimos álbuns do Depeche Mode. Mas se lá atrás ele deu uma escapadinha do casamento com algo novo, desta vez, com Hourglass, recém-lançado, ele procurou o conforto de uma “mulher” igualzinha ao Depeche Mode.

Hourglass surpreende justamente por isso, afinal por que diabos alguém lança um disco solo igualzinho ao que sua banda pode fazer? No caso de Gahan, auto-afirmação. No primeiro, desviou-se do caminho do DM, agora entrou com tudo nele – para provar, mais uma vez, que também pode ser o compositor principal da banda. Mas soar como sua banda, uma das mais influentes ainda em atividade, é bom ou ruim? No caso de Dave Gahan, é muito bom e muito ruim. Confuso?

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