
Em meados da década de 80, a gravadora inglesa 4AD era o que havia de mais legal para os descolados de plantão – bandas como Pixies, Dead Can Dance, Cocteau Twins e Wolfang Press, por exemplo, eram lançados pelo selo da empresa. A coletânea Lonely is an Eyesore, de 1987, virou um clássico instantâneo e uma raridade disputada a tapa. Rapidamente, a gravadora ganhou conotações míticas, de que tudo saia de lá era perfeito.
Com a explosão do grunge, a gravadora foi esquecida por boa parte dos fãs, que voavam atrás das novas sonoridades roqueiras que se apresentavam disponíveis. Piorou ainda mais com a eletrônica tomando conta. Ninguém mais queria saber daqueles sons etéreos, aquelas bandas sofridas, de doces melodias tristes.
Mesmo assim, a 4AD resistiu. Mais. Ela continua lançando materiais interessantes, bandas melosas e ganhando dinheiro com os Pixies, Cocteau Twin e Breeders. Mas continuam investindo em novas sonoridades – mesmo que elas remetam ao passado da gravadora… O Blonde Redhead é bem o caso. Uma japonesa, dois gêmeos italianos – todos de Nova York – cantando em inglês e soando com o Clan of Xymox. Praticamente desconhecidos no Brasil, eles lançaram 23 em 2007, seu sétimo disco de estúdio, tentando superar o espetacular Misery is a Butterfly, álbum anterior de 2004.
O hiato de três anos fez bem à banda, que se não entregou um disco superior ao Misery, ao menos chega bem próximo, variando um pouco mais – em “SW” fazem até um pequeno tributo aos Beatles nos arranjos. Mas falar de Blonde Redhead é falar das letras peculiares e dos vocais de Kazu Makino e Amedeo Pace, que se revezam. Entre a voz melosa e estridente de Kazu (uma japinha Hello Kitty) e a finesa de Amedeo, a identidade da banda se forma. Simone, o outro integrante, é praticamente o cérebro musical e mostra que gosta de trabalhar simples, sem muitas variações, que pode ser constatada em “Spring and By Summer Fall”, com baixo marcado e bateria ritmada.
Economia e versatilidade são sinônimos do Blonde Redhead, e em 23 não é diferente. “Silently” narra uma crise existencial – econômica, mas linda, “Publisher” – uma ode ao suicídio – traz elementos musicais de um horror crescente, com ecos de composição de Martin Gore, do Depeche Mode. Ou que tal uma batidinha simpática para contar – ou confundir – os fracassos de uma heroína (ou seria as delícias proibidas da droga?), em “Heroine”?.
De fato, o Blonde Readhead cresceu, está mais consistente no que estão fazendo, mesmo faltando um pouco de ousadia em 23. Dez canções de beleza extrema, mas que ainda parecem ter sido sobras de Misery is a Butterfly, retrabalhadas e reeditadas. Mesmo assim, prepara-se para escutar um disco empolgante.
Assista ao vídeo de “23″: