A rotina começa a pingar nos meus olhos e, pouco a pouco, os lugares e as pessoas vão desbotando, até que ficam invisíveis. No elevador, cumprimento o meu vizinho, a minha mãe, o meu chefe, tanto faz. São sempre uns rostos incompletos, rascunhos de pessoas, e as suas falas ensaiadas: jevaistrèsbienmercijevousenprie. Às vezes, tenho a sensação de que estou desbotando também e, por isso, evito me olhar no espelho. Não quero ter de lidar com o nada que sou... Eu?
A cidade, tão cinza, parece uma extensão de mim. Chove. E, no entanto, as crianças jogam bola na pracinha – estão completamente enlameadas, mas, para elas, isso é apenas um detalhe sem importância. Gostaria de me importar menos com os detalhes; de ser como menino diante do goleiro. Gol. No ponto de ônibus, uma mulher tentava se proteger com uma sacola de compras na cabeça, ao lado dela, o vendedor de balas; o mesmo vendedor de balas de quando eu era criança. Aqui, só se somam as rugas, enquanto as pessoas permanecem no mesmo lugar: o vendedor de balas, a dona da mercearia, os velhos que, em dias ensolarados, jogam xadrez na praça. E eu. Nos limites do bairro não importa o sexo, a idade e o nome: ninguém tem identidade. Mas: o meu ônibus e o nosso passado enquadrado.
As coisas começaram acontecer e tantas e tão rápido que nem senti, como no cinema: 24 quadros por segundo, no entanto, é impossível ter noção dos fragmentos. É fluido. Seqüenciado. Sem quebras. Estava na casa dele há menos de dez minutos e já me sentia adaptada; como se retornasse. Odeio pensar desse jeito, soa tão bobo: sincronicidade, Jung, astrologia, à merda. Não acredito nessas coisas.
[Estava junto à parede, encolhida, esperando o momento certo de… De repente, um salto e: as garras entranhadas no passarinho. Da janela, vi a gata estraçalhar, com certa delicadeza, o bicho. Nos limites do quintal, quem era o monstro? E aqui fora, entre os sins e os nãos, quem é o monstro?]
Completamente entregue: deixando o meu corpo afundar lentamente na massa de sonhos. Seus olhos, naquela tarde de verão, estavam cheios de despedida e, para além deles, as lágrimas escorriam encharcando a cidade inteira. A chuva forte que atingiu Ibirité, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), durante todo o domingo, deixou várias famílias desabrigadas. Sim, eu sabia que era o fim. Desde o dia em que te ouvi falando com ela ao telefone e, mesmo antes, quando o seu corpo se afastava do meu no meio da noite. Nos limites do nosso quarto, não havia surpresa. Nem tão de repente, um salto e...
LEIA A LETRA DA MÚSICA:
Demytrius
04/09/2009 23:09
Não gostei, é muito depressivo, a música fala sobre viver para sempre, tem um tom de arrogância, "não importa o que aconteça, eu e você somos pra sempre"
Ela é otimista, não melancolica.
Abraços
Para mandar um comentário, você precisa ser cadastrado na MOJO.
Clique aqui e cadastre-se.
Se você já é cadastrado, faça o login.
Para votar, você precisa ser cadastrado na MOJO.
Clique aqui e cadastre-se.
Se você já é cadastrado, faça o login.
A MOJO é uma editora 100% digital. Sua proposta é simples: Se música
fosse literatura, que história contaria?
Para ver todos os livros que serão lançados e propostas em avaliação,
clique aqui.