Ela dançava descalça como quem levita em purpurina azul. O braço reto e firme erguido acima da cabeça suspendia um tipo raro de instrumento musical, aos olhos de hoje um pandeiro, diriam, mas era um pedaço de luz enfeitado de fitas coloridas e cristais brutos, miúdos, dispostos em mosaico, e instantes havia em que a moça encostava no céu a melodia fina. Atrás de si, na altura dos quadris os dedos da mão esquerda desenhavam espirais no ar, deixando invisíveis rastros de infinito...
Transformava as vibrações no tempo, diziam os poucos que podiam ver, pouquíssimos. Quando a saia feita de vento, de semente e de som parava de voar comentavam que o respirar suavizava e que o sol no meio do dia repentinamente fazia-se mais amarelo.
Ela dançava e não estava só, dançava para acolher, dançava para espantar os pesos, dançava pela leveza, dançava porque era digno ler a vida com a ponta dos pés.
Família havia como árvore, uma figueira de inúmeros galhos esparramados em todas as direções, multiramificações atadas ao nó da ancestralidade. Raízes? Tão profundas e fluidas quanto a memória humana.
Reviravam a vida perseguindo a pureza da expressão, refinando os lados subterrâneos do sentir. Viviam de arte e de afeto, viviam de simplicidade e de alegria em rituais. E de tempos em tempos, recolhiam os trapos, os pressentimentos e as lembranças, subiam nas carroças e seguiam viagem por estradinhas de chão batido, areias brancas, contornadas por ciprestes encantadoramente verdes naquela região de altos e baixos. Eram demasiadamente viscerais para permanecer, era preciso partir antes que a terra se acomodasse sob os andarilhos, por sobrevivência, para não vestirem a melancolia.
Alimentava a fome de mundo daquela caravana carregar brilhos por dentro, na intenção de distribuí-los em passagens furtivas pelos vilarejos, especialmente nas noites de luas minguantes. Eles sabiam que não havia uma meta, um fim de trilho, uma estação de chegada: o rumo era interior, inadiável, e para além dos corredores íntimos, melhor que fossem de mãos dadas e cantando.
E iam: a cada pouso nova revelação, eram plenos porque havia abraço, porque havia perguntas, mas, sobretudo, respostas,porque medos havia, mas horizontes havia ainda mais nítidos...
Apoiados em nitidez e fé na própria história registraram na pedra, no fogo e em águas crespas as pistas do reencontro. E guardaram neles mesmos as coordenadas, as peças do quebra-cabeças, porque acreditavam em simultaneidades, não habitavam espaços nem olhavam o tempo passar, eram, eles todos, o tempo e o espaço metidos um no outro e convertidos em outra coisa absoluta e extraordinária... E essa estranha consciência teceu um fio colorido capaz de costurar as imagens, as ações, as dores e os vícios.
Constância: houve sempre a possibilidade da permanência em vertigem, como sabem, o equilíbrio não é o que parece, o equilíbrio voa, foram eles os primeiros a entoar esse mantra. Naquele casulo cravado em algum ponto do infinito foram felizes. Tremendamente. Intensamente. Das unhas aos nervos foram naquela vida contentamento. Ela dançava para celebrar quando ouviu o trovão. Interrompeu o rodopio no ar a violência das patas, tantas, pesadas e frias, ninguém ouviu o grito das dores espalhadas no astral... Cavalos da cor do cobre em disparada, na contramão do ritmo, arrastaram o silêncio para dentro da noite.
No primeiro quarto minguante na cidade da ponta deu-se no ar um nó apertado. 1535. O nome valioso da moça não se perdeu.
LEIA A LETRA DA MÚSICA:
bruna patzdorf
26/11/2008 23:11
A déiaaa Sempre arrasaa!
Fred Matos
26/11/2008 16:11
Faz muito pouco tempo que tive contato com o texto da Andréia, mas já sou fã.
Parabéns, menina.
Beijos
Régis Garcia
26/11/2008 02:11
Não sei se é mais prazeroso ler a Déia ou escutar a Mitchell. Na dúvida, os dois ao mesmo tempo é uma excelente pedida!
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