Ela possui a doce propriedade de permanecer na memória. Ponto por ponto; gosto por gosto; cheiro por cheiro. Na sucessão das ruas e das casas por onde jamais passei: portas, janelas, pavimentos; tudo, mesmo sem apresentar particular beleza ou raridade, é de se apaixonar para sempre. Até em suas nuvens, chuvas e tempestades. Tudo. O seu segredo vem do modo, do olhar, do jeito como percorre o todo feito figuras musicais que se sucedem em uma partitura em que não se pode mudar um único rabisco, sob pena de ter-se outra música que não aquela; a dela.
Minha mente não podia mais me levar de volta para casa. Eu podia sentir. Ainda recordo-me de quando saí. Sim, foi minha mente que me levou até lá. Atravessei o país para nunca mais voltar.
É um lugar onde as mulheres possuem lindos dentes, sublimes lábios, cabelos bem tratados e olham nos olhos. Lêem pensamentos; luminosos; o tempo todo. E anseiam por isso.
Eu era um Romeu e sangrava.
Por lá se caminha em movimentos circulares por entre árvores, cimento, asfalto e areia. Assim é preciso para não molhar os pés.
Um vento gelado a soprar em meus ouvidos, disse-me sussurrante: apenas feche os olhos, filho, e não vai doer quase nada.
E a fadiga que moldava os meus desejos, tomava dos desejos a minha forma. E eu jurava estar me divertindo, quando não passava de um escravo.
Sob olhares mais atentos, dir-se-ia que os futuros não realizados são apenas ramos do passado.
Eu era um Romeu e sangrava. Mas ninguém notava.
E foi inútil a minha viagem para visitá-la. Obrigada que está a permanecer imóvel e imutável para preservar a própria memorização, a própria identidade, a própria atmosfera – ela definhou, desfez-se, evaporou, sumiu. Desmoronou do alto de si mesma. Fez-se amortecida e quase esquecida por mim.
Atravessei o país para nunca mais voltar.
Reconheci-me. Desvendei demais sobre o que sou, sobre o que desejo ser; descobrindo o muito que não tive, nem nunca terei.
Minha mente não poderá mais me levar de volta para casa. Eu posso sentir em meu cérebro; eu posso experimentar em meus ossos; eu posso ouvir em meus pensamentos; eu posso ler em minha melancolia; eu posso ver em minhas verdades.
Foi minha mente que me levou até lá.
Eu fitava o nada, apoiado em minha xícara de café.
Eu era um Romeu e sangrava.
LEIA A LETRA DA MÚSICA:
Linda Simone Zeiss
05/12/2008 01:12
Me repetirei, porque não me canso nunca de repetir o que direi:
“Reconheci-me. Desvendei demais sobre o que sou, sobre o que desejo ser; descobrindo o muito que não tive, nem nunca terei.”
Sentença simplesmente LAPIDAR, é o mínimo que posso dizer! :)
“Eu era um Romeu, e sangrava. Mas ninguém notava.”
Ai, ai, ai... quanto pesar... que peninha... queria estar lá para ajudar... será que ainda dá para fazer alguma coisa? :) (Lindo, lindo, lindo isso – forte – quanto sentimento temos aqui hein?).
Se é preciso sofrer em demasia para escrever assim, magnificamente assim, apesar de “deveras” :) condoída e penalizada por você, não me leve a mal, mas eu lhe suplico: sofra, sofra, sofra... não pare jamais de sofrer! Os aficionados pelas belas letras agradecem :). Seremos todas(os) eternamente gratas(os) pelo seu sofrimento (KKKKKK)...
Beijo
Reges Schwaab
05/12/2008 01:12
Este ser palavreante traz, em sua alma, a verdadeira essência do escritor; é literatura por inteiro. Como saber disso? Nas suas mãos, nenhuma página permanece em branco. Páginas em branco, aliás, são elixir. O verdadeiro escritor emociona-se diante do espaço para a escrita. Inspira e vai; ele já carrega a literatura dentro de si. Basta descobrí-la, a cada instante, todos os dias. E alimenta-se deste próprio ofício, em um círculo perfeito, traçado por rotas e caminhos (di)versos, sempre cheios de prosa, porém. Em palavras, ele faz abrirem-se todas as almas do mundo: generosidade pura, mais um traço do verdadeiro escritor.
Liliam Kikuchi
04/12/2008 08:12
"Eu era um Romeu e sangrava. Mas ninguém notava.
Uma bem estruturada construção de palavras, todas de cristal fino...
Onde tudo está no lugar certo, e deve ser vista sem ser tocada...
Um toque... e tudo pode estilhaçar-se, em milhões de caquinhos desconexos."
Assim é tudo o que Lehgau-Z escreve.
Ana Lúcia Pompermayer
03/12/2008 13:12
Presente escrito para ler e reler, movimentar-se entre as frases, ir de lado a outro, flutuar em sensações de ritmo e poesia.
Lehgau-Z faz isso: devora sentimentos que também temos, cotidianos que vivemos, nos digere e nos retorna tudo em palavras-presentes. Traduz com maestria nossos sentires mais viscerais.
É um dos comilões inveterados das emoções cotidianas. Mas dos raros, daqueles capazes de sair vomitando Arte por aí...
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