MOJO #106

DAVE MATTHEWS BAND
THE FLY
LANÇAMENTO: 24/01/2009


Pressinto. Esse vento cortante da cidade do cinza carrega os rumores do meu próximo naufrágio. Ando cansada de submergir. Inesperadamente afundo e não há datas para vir à tona. Tenho feridas na carne do meu rosto. Tenho feridas na língua que nunca cicatrizam.

Sei que essas marcas reincidem para me lembrar a direção estreita. São os excessos da minha voz, sobras da minha fala viciada, manchas do meu silêncio, avisos da minha contenção. Ausência de mim em mim. Essas ulcerações me voltam para não me deixar esquecer: não mais a arrogância, não mais a soberba, não mais a intolerância, não mais rigidez, não mais guerrear. Não e não.

Recomeço a ver vultos nos cantos da casa, me assaltam os arrepios, os calafrios, as dormências pela alma. Passa a me escapar a noção do tempo do relógio e deslizo para dentro dessa fenda pegajosa do tempo inteiro, em que me encontram passados e futuros, culpas e desamores, e raros acertos. Inferno astral. Avesso. Esquizofrenia, paranoia profunda, escassez de luz, o horror das minhas olheiras no espelho.

Eu não quero ir, juro, mas não sei ficar. Não suporto ficar. Preciso rasgar a garganta e deixar sair a luz, mas as minhas unhas caem como caspa, uma a uma. Ficam os meus dedos nus e também eles não aguentam o toque. Não quero que ninguém me toque. Quero que qualquer um me toque. Me olhe. Me estenda a mão. Me acolha. Me assopre.

Não sei dirigir, mas eu mesma me atropelo constantemente. Avanço com o carro para adiante e engato a ré e... posso me ouvir rindo alto, nervosa, doente. Essa que me esmaga não sou eu. Só uma casca fria. Os outros, aqueles que vagam, entram nessa capa revestida de nódoas e assumem o controle. Eles não se penteiam, não tomam banho, não abraçam, não flutuam. Eles ainda não aprenderam a destrancar as janelas e sair. Eles não se reconhecem sobre os próprios pés. Alguns nem tem mais pés. Eles olham os meus e os querem para si. Querem os meus pés, as minhas mãos, a minha pele, a minha língua. Eles avançam feito varejeiras na carne crua... e me abandonam, dilacerada, quando consigo chorar.

Muitos deles esperam que eu chore, que chore forte e de soluçar, porque sabem que isso tece um fio luminoso que conduz a um labirinto infinito, vários pontos mínimos de cor por onde podem passar se aguardarem o instante definitivo: sim.

Então eles saem de mim, aos solavancos, e migram para lugares desconhecidos, atravessam solos e tetos e antes de partir, arranham as minhas paredes e me deixam memórias do absurdo, do que não vivi, mas vi em tempo irreal com esses olhos estranhos que me brotam pelo corpo todo.

Fica a forma avariada, a pele esgaçada, a atropelada. Tenho medo de desistir da superfície e nunca mais me recuperar. Não comento, a insanidade segue sendo meu maior temor. Ando querendo o silêncio e a reclusão, mas em todo canto que me abrigo esses estranhos aparecem para me fazer companhia. Não quero te assustar. Cada palavra minha é mera formalidade. Registro as minhas impressões de vertigem para que logo ali adiante os meus bilhetes não sejam confundidos com as anotações de uma suicida. Essa vida é muito boa.


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