A janela estava fechada. Apoiado no parapeito, contemplava o céu depois da chuva.
Aonde foi parar a minha alma?
Refletia.
Refletia-se.
Nos rastros molhados da chuva que se ia.
Foi-se em passos encharcados.
Ele e seu casaco, amarrado um pouco frouxo e abaixo da cintura para conseguir respirar melhor.
Para trás ficou apenas o cheiro de mofo. Daquela história, restavam cinzas de noites de incenso queimado. Noites em que dormia pensando nela, que sonhava com ela. E assim acordava e assim passavam seus dias. Imaginando que, em algum lugar, suas palavras estariam registradas.
*
setembro/2003
Ela andava na ponta dos pés pela sala bagunçada. Era a primeira vez que entrava naquele apartamento. Olhava para tudo como se estivesse visitando um museu, imaginando a história de cada um dos objetos.
Pouco se falaram.
Você pode sentir o silêncio? Às vezes, acho que posso pegar o silêncio no ar com as mãos.
Ele se levantou da poltrona que ficava ao lado da janela (fechada).
Posso te beijar?
*
setembro/2006
Dessa vez, era ela que olhava a janela.
Passeava os olhos pela varanda e pelos telhados.
Ia muito longe, pensamento lento. Só viu que o dia estava acabando muitas horas depois que eles haviam chegado.
Nove da noite. A fome se misturava ao pôr-do-sol.
Comeram.
Atualizaram-se.
Ele dormiu.
Ela foi para a janela, seu reflexo nu, os cabelos (agora longos) caídos pelos ombros, misturavam-se a galhos de uma planta qualquer, podados e esculpidos como se fosse um bonsai.
Nunca na vida havia se sentido tão bonita.
Falou em voz baixa : « Vim para ficar ».
*
dezembro/2007
O mesmo apartamento, a mesma janela.
E uma placa na porta indicava : « proibida a entrada de estranhos».
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fevereiro/2008
Eu fecho os olhos e sinto que você está colado no meu corpo. Quando abro, vejo você aqui, a um palmo de distância. Fecho de novo. Olha. Sente. Você está lá do outro lado, depois daqueles telhados.
Enquanto ela se levantava, ele segurava sua perna, como se quisesse impedir a partida.
E ela já não estava mais.