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Crítica | Concorrência Oficial

by Logan Nelson

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Qual é a verdadeira virtude da arte? Ela deve ser desafiadora, te incomodar e fazer você pensar em cada ponto de interação? Ou ela deve ser confortável, um local onde você possa sentir segurança e conexão emocional? Tal questionamento leva a muitos debates, principalmente online, sobre de que forma devemos interagir com produções cinematográficas. Esse também é um dos temas apresentados no filme Concorrência Oficial, que estreou exclusivamente no Star+ na última sexta-feira, 22 de julho. Na trama, somos apresentados a um bilionário que quer deixar seu legado no mundo, aos 80 anos ele sentia que não tinha o amor e reconhecimento do público que merecia, então decide financiar a produção de um filme. Para a realização desse filme, ele busca os “melhores” artistas que o dinheiro pode conseguir, que inclui a diretora Lola Cuevas, vivida por Penélope Cruz, e a dupla de atores Iván Torres e Félix Rivero, Oscar Martínez e Antonio Banderas respectivamente. 

Logo nos estágios iniciais de criação filme, a narrativa nos deixa clara a hipocrisia na obra, afinal ela não foi idealizada por algum sentimento artístico ou ideológico, e sim pela vontade de saciar o ego de seu produtor, ego sendo um tema central que será ainda posto à prova. Mesmo sendo algo explorado ao longo do filme, o ego aparenta ser invisível para seus personagens. A história se passa ao longo de 9 ensaios em que acompanhamos a diretora e os dois atores se conhecendo e se conectando, a personagem de Cruz parece ser a mais autoconsciente do que está acontecendo nesses ensaios, apesar de usar métodos excêntricos para dirigir seus atores, Lola Cuevas sabe seus defeitos, sua jornada ao longo da história é tentar torná-los invisíveis através da arte, mas para isso ela precisa lidar com o choque de uma dupla de atuação que não consegue ceder. Iván Torres é um professor de atuação que nunca conseguiu alavancar sua carreira para o sucesso que ele acha merecer, porém ele se convence que tal sucesso é fútil e banal. Nas palavras do mesmo, ele não acredita que arte deve ser vista como entretenimento, ela deve incomodar e desafiar, aqui Martínez entrega com maestria um homem conservador que não consegue enxergar sua própria ignorância, cego embaixo do véu da superioridade intelectual. Do outro lado temos um astro de cinema, vivido por Banderas, que não acredita em nenhuma profundidade nas suas produções, para Félix Rivero, a atuação deve apenas ser carismática o suficiente para conectar com o maior número de pessoas possíveis e assim ele conseguir maior sucesso.

A direção da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, já tendo trabalhado juntos em outras produções, é algo mais estático, muitas cenas são com a câmera centralizada no ambiente, com uma trilha sonora tímida ou inexistente e os atores brilhando na cena. Uma sequência que chama a atenção é uma em que o trio de protagonistas estão ensaiando o texto embaixo de pedra de 5 toneladas prestes a cair, durante a cena não sabemos que a pedra é falsa, uma mentira contada por Cruz para que seus atores entreguem a atuação que a mesma deseja para o filme. A cena é um plano longo sem cortes aparentes onde Martínez e Bandeiras brilham no conforto do desconforto de seus personagens, a confiança de Cruz que gira em torno deles, os desafiando a irem mais fundo na atuação enquanto observando através de uma câmera estática a situação.

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O embate de Iván e Félix traz comentários satíricos ao longo do filme, alguns metalinguísticos em que é traçado um paralelo entre os dois com os personagens que estão encarnando na obra dentro da obra. Essa metalinguagem nos questiona afinal a pergunta que foi feita no início desse texto: o que valida uma arte? Somos Iván ou Félix? Ou somos Lola? Uma das conclusões possíveis para o filme é que arte é ego, o ego sendo transposto para uma obra de maneira que possa nos fascinar ou nos confortar.

Concorrência Oficial é um filme com comentários que trazem uma sátira divertida e questionadora, que nos entrega um trio de protagonistas que encarnam arquétipos que vão além do genérico e, com uma atuação brilhante, nos fazem empatizar ao mesmo tempo que discordamos com todos, resultando numa experiência que acaba entregando tudo o que o trio queria, um filme que incomoda e questiona, que conecta com o público mas que também representa a arte dos seus criadores. 

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