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Eduardo e Mônica: a vida entre parangolés, coros e rock inglês

by Logan Nelson
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O filme pode ser visto como uma comédia romântica, mas a versão da música “Eduardo e Mônica” para o cinema é mais do que um entretenimento. Dá muito o que pensar, a partir do que se acrescentou à história original de Renato Russo. O diretor René Sampaio recriou a narrativa da canção da Legião Urbana. É uma outra trama que surge na tela, para além das idas e vindas do casal de personagens.

Lançada em 1986 no disco “Dois”, a canção tem o padrão folk de Bob Dylan, mestre em elaborar figuras que parecem de carne e osso. Eduardo é o rapaz convencional que se vê pressionado pelo destino de classe média, no Brasil dos anos 1980. Em contraposição a ele, Mônica herda os modos da geração de 1968, com sonhos de liberdade e contracultura — porém sem traços do romantismo revolucionário da década de 1960.

O filme introduz, de forma acertada, novas cenas, personagens e símbolos. A narrativa recriada por Sampaio coloca o personagem Eduardo (feito pelo Gabriel Leone) entre dois polos. De um lado, obviamente está Mônica (Alice Braga). A novidade é a criação de Bira, o avô de Eduardo e interpretado pelo ator veterano Otávio Augusto. Ele é o polo oposto: o militar aposentado e cioso de supostos valores da religião, família, tradição e propriedade.

Eduardo mora com o avô Bira na vila militar de Brasília que reproduz um clima de cidade interiorana. Mônica, por sua vez, vive no ateliê do pai que acabara de morrer — ele havia sido professor universitário e exilado político. A médica recém-formada também cria instalações de artes plásticas de grandes proporções. Na estrutura do filme, o protagonista aparece assim no confronto entre essas duas visões.

O ponto de fuga para Eduardo é o encontro com as artes, mais especificamente o trabalho de Hélio Oiticica e o rock inglês. Numa cena filmada no Parque da Cidade, Mônica se junta a uma manifestação que tem uma bandeira com a inscrição “Seja marginal Seja herói”, criada por Oiticica.

A sequência final do filme se passa na instalação concebida pela protagonista, na forma de um clássico ninho e de um parangolé oiticiqueanos — no meio de obra, estão o casal e a imagem do peixinho vermelho.

Percorre o filme a metáfora do “peixinho vermelho” (o “Rumble fish”, título original do filme “Selvagem da Motocicleta”, de Francis Ford Coppola). Ele significa a liberdade de espírito de Mônica e Eduardo, numa época (a década de 1980) que as pessoas se tornaram presas à “jaula de ferro” do mercado e do conformismo. Ninho, parangolé e o peixe são os contrapontos para aquela época e para as falas de Bira.

Outro horizonte apontado pelo filme é o rock inglês. Bauhaus, The Cure e Joy Division foram a trilha sonora de uma Brasília em transição política, cultural e social. As festas não eram mais no embalo de música brasileira. E mais importante: ouvir um som alto é o momento de celebração dos grupos de jovens. É um coro que, por exemplo, amplifica a voz de Eduardo na cena que ele canta uma canção brega americana e conquista Mônica de vez.

Também é um coro de festa que encerra o filme. Pela primeira vez, na subida dos créditos do filme, os personagens cantam e dançam ao som da versão original de “Eduardo e Mônica”. Contra o individualismo dos dias atuais, surge uma possibilidade de celebração em grupo. Há vida em grupo, na coletividade.

Não é por acaso que a faixa final do último disco da Legião Urbana é “Travessia do Eixão”, um mantra de várias vozes composto pelo poeta Nicolas Behr. Um canto coletivo foi o ponto de chegada para a trajetória musical de Renato Russo. Se há algum futuro por aqui, no Brasil, ele está nos coros, parangolés, ninhos, peixes vermelhos e na energia de um rock. Eis o recado deixado pelo filme “Eduardo e Mônica”.

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